17.8.06

A navalha

Ele estava numa escrivaninha bem ao lado da cama onde ela estava deitada. Começou a olhá-la, tranqüilamente lendo seu livro, de bruços. Como era linda, se achava um sortudo ao vê-la ali, só dele.
Ela estava lendo um livro que já não sabia mais qual era o assunto, não conseguia se concentrar com os olhos dele sobre ela. Cansada de ler 5 vezes o mesmo parágrafo ela finalmente voltou sua atenção à ele:
- Quê? Não consigo ler com você me olhando assim.
- Eu não consigo fazer nada com você do meu lado.
- O que você está fazendo?
Ele estava fazendo um trabalho para a facu que era para ontem, ele já estava de dp na matéria mas mesmo assim disse:
- Nada importante...
- Vai, chega por hoje, vem deitar!...não adianta fazer seus trabalhos se você estiver cansado, vai ser menos produtivo...
Ela levantou o edredom e abriu espaço para ele. Ele entrou embaixo das cobertas e a abraçou, estava tão frio aquela noite, sentir o corpo dela contra o seu deu uma sensação de segurança e alívio. Começou a beijá-la com carinho primeiro na testa depois na boca.
Agora a sensação era de desespero, não queria perdê-la nunca! Começou a pensar nas contas, na faculdade, e não pode conter um pequeno fio de lágrimas que escorreu sobre suas bochechas.
Ela gentilmente secou as lágrimas dele e sussurrou em seu ouvido:
- Nós vamos conseguir, estarei sempre aqui. Te amo
Ele arregalou os olhos e surpreso pela ação e pelo fato de acabar de descobrir a mesma coisa disse em estado de choque:
- Também te amo, muito!
Eles dormiram sem se mexer.
Quando ele acordou no dia seguinte ela já havia se levantado, ainda podia sentir o cheiro de seus cabelos no travesseiro, a casa estava vazia. Sem esperar ele ouviu a campainha tocar, se levantou e foi abrir a porta. Era seu amigo, Sérgio.
- Vamos homem! Você não pode ficar assim, já fazem 1 ano e meio. Você abandonou tudo!
Olhando em volta, Sérgio viu a cozinha cheia de pratos sujos sobre a pia, fedia a ovo podre, enxofre, amônia. Moscas sobrevoavam os pratos, sabe-se lá a quanto tempo aquilo estava ali. Não ousaria perguntar quando foi a última vez que ele comeu, pela aparência ele devia estar só bebendo água. Foi ao seu quarto e viu um lugar todo empoeirado, sujo, também fedia, a gente podre e não ovos como a cozinha. No travesseiro viu uma foto no porta retratos, era ela, Ana.
Já fazia 1 ano e meio que ela havia morrido em um acidente de ônibus, ela estava indo buscá-lo na faculdade. Finalmente ele disse alguma coisa:
- Ela estava aqui ontem, eu a senti, ainda sinto seu cheiro no travesseiro, acredite em mim!
- Eu acredito, eu acredito.
Sérgio temia por aquele amigo, que já não reconhecia mais, sabia qual seria seu fim, agora só restava esperar.